20/10/2011

o caso Rômulo Lemos e a cultura do macho pegador

A agressão de Rômulo Lemos a estudante Rhanna, que resultou em quatro placas de titânio e dezesseis pinos no braço desta última, foi um dos assuntos mais comentados dos últimos dias. Num primeiro momento, a estupidez e a brutalidade do ato exigem, quase que de forma automática, o repúdio e a cobrança pelas medidas cabíveis de apuração e punição ao agressor.

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É preciso ver nesse episódio mais que a brutalidade do golpe, mais do que a revolta contra a crassa troglodice ou a pressão pela responsabilização penal, mais que os envolvidos e seus estereótipos. Há nisso tudo a atuação de um padrão machista de relações sociais, um modo violento, cruel e sádico pelo qual, muitas vezes, os homens se relacionam com as mulheres.

E não se trata aqui, como se poderia, apressadamente, concluir, de manifestações extremas como estupro e o espancamento regular. Mas de atos sutis, posturas e atitudes cotidianas, presentes e atuantes em gestos, palavras e olhares por meio dos quais os homens se aproximam, “apreciam”, paqueram ou se dirigem às mulheres. Trata-se das passadas de mão em ônibus ou corredores, as frases e provocações grosseiras, as insinuações invasivas, o “comer com os olhos”, as buzinadas, assobios e “psius”. Tudo isso que expressa literalmente um não-reconhecimento da autonomia e integridade moral do outro, da liberdade de seu corpo e de seu desejo.

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A indignação contra o episódio não pode nos fazer perder de vista esse horizonte cultural violento e sádico que norteia o modo de relacionar-se entre homens e mulheres dentro do qual tal episódio está essencialmente inscrito, reduzindo assim a questão à responsabilidade individual do autor da agressão. (...) a violência tem sido um aspecto constitutivo da educação e da identidade dos homens, o significante em função do qual vêem a si mesmos como homens, o meio para se tornarem homens de verdade.

O caminho para fazerem-se de si mesmos homens, em nossa cultura e sociedade, está intimamente ligado tanto à violência virilizadora quanto à posse de mulheres. Uma educação fortemente centrada no imperativo de se ter poder sobre as mulheres, de subjugá-las à vontade masculina, é o que está na raiz de uma série de práticas comuns, pelas quais os homens gozam de ampla e irresponsável liberdade no trato com as mulheres, inclusive promover, em baladas e carnavais, “ataques” e cercos em bando contra estas, acossá-las e segurá-las pelo braço, pelo cabelo ou cintura quando os recusam ou ignoram.

Infelizmente, tal crença apóia-se num traço – ainda persistente e com alguma força de realidade – de nossa cultura, que educa e constrói mulheres e homens para o olhar e o exercício da masculinidade, como que a afirmação da feminilidade das primeiras e da masculinidade dos segundos somente são possíveis mediante esta relação de um sujeito que olha ofensivamente, invade e que fala grosserias e um objeto passivo que somente se realiza se for notado e devassado com virilidade e agressividade. É dessa crença misógina que deriva a ideia que a mulher está provocando quando sai de casa de saia ou shorts curtos, o que é interpretado na cabeça vazia de muitos como sendo um tipo de autorização ao assédio, ou a representação feminina pelos comerciais e pela publicidade em geral da mulher como uma máquina cuja única qualidade e atributo significativos são a sedução e o seu corpo.

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Cenas e episódios como os que envolveram Rômulo Lemos e a estudante Rhanna, para além da apuração e dos procedimentos legais, devem nos servir para questionar a consagração dessa cultura do macho-pegador. A ferocidade dessa cultura manifesta-se em relações sociais de gênero assimétricas entre homens e mulheres, estabelecidas segundo padrões violentos de sociabilidade e de identidades de gênero pré-definidas para proporcionar o desempenho de papéis que brinda uns como sujeitos e outras como objetos de poder e de assujeitamento. Um dos problemas centrais, nesse caso, reside, portanto, em como nossa sociedade naturaliza uma forma de masculinidade na qual a violência e o direito sobre o outro como objeto de seu desejo e vontade são elementos estruturadores da identidade, autoimagem e performance masculinas.

Por último, caberia perguntar também, até que ponto a violência, a agressividade e misoginia masculinas seriam não apenas produtos de um processo de incorporação dessa cultura do macho-pegador, mas também o resultado da repressão dos elementos mais emocionais, uma ocultação das emoções e dos gestos mais afetuosos cujo desdobramento resulta numa quase impossibilidade dos homens de expressar-se de outro modo.

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*o texto acima não é de minha autoria e pode ser lido na íntegra AQUI.

2 bichaloirices:

Letras Saltitando disse...

QUE HORROR!

Dama de Cinzas disse...

Realmente foi um absurdo. Quando vi mal pude acreditar. Um cara desse não tem como conviver civilizadamente com uma mulher. Não tem como se relacionar. Ele não tem o mínimo de valores que um ser humano precisa para estar ao lado de outra pessoa.

Beijocas